segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

TEÓLOGO DENUNCIA NO RIO: "NOITE DE MORTE E REVOLTA EM FAVELA PACIFICADA"

O corpo do idoso atingido após o disparo de uma arma de fogo é transportado para o IML
O corpo do idoso atingido na favela do Mandela após o disparo de uma arma de fogo é transportado para o IML (Foto: Correio do Brasil)
Indago: lá estávamos nós – moradores pobres, a viúva, policiais, repórteres, cinegrafistas, fotógrafos, lideranças comunitárias, crianças, adolescentes, jovens, idosos-, com os pés na lama, na noite escura, com a roupa encharcada pela chuva, inalando spray de pimenta, com os olhos lacrimejando pelo efeito do das bombas de gás lacrimogênio, os ouvidos tinindo pelo barulho das explosões. O que e quem está acima de nós e nos remeteu para aquele inferno? Qual a responsabilidade de todos nós na morte do seu José Joaquim e miséria daquela favela? O que o nosso olho cego não vê?

Por Antônio Carlos Costa (teólogo calvinista), do Rio de Janeiro, no jornal digital Correio do Brasil, de 22/12/2013

Na noite de quarta-feira passada, lideranças comunitárias do Complexo de Manguinhos me telefonaram pedindo que corresse para a favela Mandela, na esperança de que ajudasse a dar visibilidade a um crime que acabara de acontecer. Um policial teria disparado um tiro que acertou o olho esquerdo de um senhor de 81 anos de idade levando-o à morte.

Entrei no meu carro e parti, seguindo a minha consciência, que servia de contraponto às palavras de um amigo, conselheiro, profundo conhecedor da realidade de favela, que me aconselhava a não atender ao pedido que me fora feito, devido à minha falta de experiência com conflito entre morador de favela e polícia.

Durante o caminho ligava para os amigos da imprensa, relatando o ocorrido e pedindo que mandassem suas equipes para a favela. Estacionei na Leopoldo Bulhões e entrei na comunidade. Passando pelos moradores que protestavam na rua, fui conduzido ao local onde se encontrava o corpo da vítima. Subi três andares, abriram um portão, e vi o que jamais sairá da minha memória. O brilho do sangue. O vermelho contrastando com o chão de cimento e uma pequena parte da pele da vítima, cujo corpo não fora completamente coberto pelo lençol que o envolvia.

Não sabia como conciliar tantas tarefas ao mesmo tempo. Consolar a mulher da vítima, apaziguar os moradores, ouvir os relatos das testemunhas, fazer o registro fotográfico, mandar a imagem para a imprensa e pensar numa forma de a comunidade protestar de modo pacífico.

Ali me contaram a história trágica do seu José Joaquim -marceneiro, cujas obras estão espalhadas pelo Rio de Janeiro, amado pelos antigos patrões, sem parente de sangue no mundo, apaixonado pela dona Maria Lúcia, com quem haveria de se casar nos próximos dias depois de nove anos de vida em comum-, que após o jantar, na porta de sua casa, desabou sem ter tido tempo de pensar que se tornara cego de um olho.

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