LEONARDO PADURA, O HOMEM QUE NÃO AMAVA OS FANÁTICOS


O escritor cubano Leonardo Padura, com um exemplar da edição em espanhol

Um dos grandes temas do livro é o fanatismo. O de Stalin, que manda assassinar León Trotsky. O de Kotov, encarregado pela KGB de conceber o plano e executá-lo. E o de Ramón Mercader, que o assassina. O que é um fanático?

Por Martín Granovsky, no jornal argentino Página/12 - reproduzido do portal Carta Maior, de 26/05/2013 (entrevista com o cubano autor de "O homem que amava os cachorros", livro lançado no Brasil no dia 9/dezembro)

Edição brasileira da Boitempo Editorial: clicar para ler matéria sobre o livro

Buenos Aires - O homem é tranquilo, mas deixa escapar algum “que merda” de vez em quando, principalmente quando fala da liberdade crítica e, nesse momento, seu semblante se faz mais enérgico. A Leonardo Padura (La Habana, 1955) os cubanos se aproximam para perguntar por Mario Conde, seu personagem de policial negro, como se fosse alguém de carne e osso. Outros, dentro e fora de Cuba, continuam intrigados pelo livro El hombre que amaba a los perros, publicado pela Editora Tusquets em 2009. O fio condutor é a perseguição de León Trotsky até seu assassinato no México, mas a novela excede longamente o magnicídio cometido por Stalin.

Um dos grandes temas do livro é o fanatismo. O de Stalin, que manda assassinar León Trotsky. O de Kotov, encarregado pela KGB de conceber o plano e executá-lo. E o de Ramón Mercader, que o assassina. O que é um fanático?

–A exacerbação de uma ideia, de um sentimento ou de uma preferência. O fanatismo esportivo é o primeiro que vem à mente. É o mais massivo, mas pode ser o menos problemático. Já o fanatismo político sim pode ser muito daninho. Acho que as pessoas têm o direito de ter uma crença política, sempre e quando essa ideia política não seja agressiva, prejudicial. Tampouco lesiva da dignidade, da liberdade ou da integridade de outra pessoa. Tu podes ser de esquerda ou de direita, ou mais comunista ou menos comunista, mas não tens direito a impor-te aos demais e, do teu fanatismo, da tua crença absoluta, conceber que os demais devem pensar igual a ti.

A esquerda tem uma forma própria de fanatismo?

– Há uma forma de fanatismo socialista ou comunista que é muito complicada: a ideia de que, por teu bem, tens que ser obediente e tens que aceitar a opinião da maioria. Isso vai contra a liberdade de opção. No livro, Trotsky também é outro fanático.

Por quê?

– Até o final de sua vida teve apenas uma convicção e não mudou. Inclusive foi capaz de sacrificar a sua família. Estava tão convencido de que o socialismo era a solução para os problemas da humanidade, que nem sequer quando pôde comprovar que a prática socialista à maneira de Stalin, que foi a única que se pôs em prática, podia levar aos desastres e aos crimes que levou, mudou de ideia. Era anti-stalinista, mas nunca deixou de ser um comunista convencido e o escreveu e o expressou.

Coloco-me como advogado do diabo e digo: “Stalin foi a deformação monstruosa de uma essência nobre”. E posso dizer o mesmo do próprio Lênin.

Também se pode dizer, e tens razão ao dizê-lo. O que acontece é que toda a razão e todas as verdades podem ser relativas, discutidas. E a posição de advogado do diabo te dá a vantagem de poder encontrar o ângulo do qual uma verdade pode parecer absoluta ou uma afirmação pode ser rebatida. Mas sim, acho que, em essência, Trotsky foi também um fanático e que Stalin não foi só uma ideia, mas uma prática.

–Sabemos o final do homem que amava os cachorros. Trotsky será assassinado. Mas, inclusive sabendo, o efeito é desesperante para o leitor: é a história de uma vítima perpétua.

E como seriam os fanatismos de Stalin, de Kotov e de Mercader?

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