quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

CARLOS MACHADO: “QUAIS ESPANTOS ESTÃO GUARDADOS NO BAÚ DE QUINTANA?”



Tarsila do Amaral - Cartão Postal
Mais poeminhos do Mario Quintana (parte 2)

BIOGRAFIA

Entre o olhar suspeitoso da tia
E o olhar confiante do cão
O menino inventava a poesia...
          De AHS (Apontamentos de História Sobrenatural – 1976)

A OFERENDA

Eu queria trazer-te uns versos muito lindos...
Trago-te estas mãos vazias
Que vão tomando a forma do teu seio.
          De ET (Esconderijos doTempo)

ANOTAÇÃO PARA UM POEMA

As mãos que dizem adeus são pássaros
Que vão morrendo lentamente
          De AVH (A Vaca e o Hipogrifo – 1977)

HORROR

Com os seus OO de espanto, seus RR guturais, seu hirto H, HORROR é uma palavra de cabelos em pé, assustada da própria significação.
          De SF (Sapato Florido – 1948)

SEMPRE QUE CHOVE

Sempre que chove
Tudo faz tanto tempo...
E qualquer poema que acaso eu escreva
Vem sempre datado de 1779!
          De PV (Preparativos de Viagem – 1987)

OS RETRATOS

O pior de nossos retratos é que vão ficando cada dia mais jovens.
E chega um dia em que parecem nossos filhos...
E a gente os olha comovidamente, como se houvessem morrido há muito, sem plena mocidade. Os pobres-diabos!
          De DPMT (Da Preguiça como Método de Trabalho – 1987)

O ASSUNTO

E nunca me perguntes o assunto de um poema. Um poema sempre fala de outras coisas...
          De DPMT
Tarsila do Amaral - Morro da Favela
DO TEMPO

Nunca se deve consultar o relógio perto de um defunto. É uma falta de tato, meu caro senhor... uma crueldade... uma imperdoável indelicadeza...
            De SF



?

Que artista teria inventado o nosso ponto de interrogação? Ele já tem a forma de uma orelha que escuta.
          De PG (Porta Giratória – 1988)

IDADE

Estou nessa idade em que o juiz consulta o relógio e as arquibancadas já vão se esvaziando...
          De PG

O ESPELHO NO ESCURO

Um espelho no escuro aproveita a solidão da noite para refletir, de fato.
          De PG

HAIKAI DE OUTONO

Uma folha, ai,
melancolicamente
cai!
          De ACI (A Cor do Invisível – 1989)

HAIKAI
Silenciosamente
sem um cacarejo
a noite põe o ovo da lua...
          De ACI

Uma das coisas que não consigo absolutamente compreender são os que se converteram a outras religiões.
Para que mudar de dúvidas?
          De CH (Caderno H – 1973)

Mario Quintana (Foto: Poesia.net)
Por Carlos Machado:


"Caros,

Os versos "Eles passarão... / Eu passarinho!", do gaúcho Mario Quintana (1906-1994), hoje já circulam quase como um dito popular — aquela frase que muitos repetem mas nem todos têm conhecimento do autor. Esses versos pertencem ao "Poeminho do Contra" (publicado na parte 1).

Observem: "poeminho", e não poeminha. Trata-se de uma invenção do grande Quintana, o poeta do lirismo quase puro, capaz de agradar tanto a leitores especializadíssimos — a exemplo de Cecília Meireles, Carlos Drummond de Andrade e Manuel Bandeira —, como a milhões de admiradores anônimos.

Não podia ser de outro jeito para um escritor que batizava seus livros com títulos tão intrigantes e sugestivos como Baú de Espantos, A Cor do Invisível, Da Preguiça como Método de Trabalho, Esconderijos do Tempo e Apontamentos de História Natural.

A simples menção desses títulos já constitui uma experiência poética. Qual será a cor do invisível? Como se estrutura esse maravilhoso método de trabalho baseado na preguiça? Onde ficam os esconderijos do tempo? Quais espantos estão guardados no baú de Quintana? Cada uma dessas perguntas constitui um deleite prévio para quem se aproxima do livro.

                      
                                                         •o•

Não sei se Quintana chegou a definir em algum lugar o que entendia por “poeminho”. Mas não importa: é possível intuir que o poeminho seja um poema curto condimentado com os temperos da graça, ironia e pureza do lirismo quintaniano.

Com base nesse critério fluido, selecionei na Poesia Completa dele um punhado desses textos leves e graciosos que explicam e justificam a grande simpatia e acolhida que o poeta recebeu em vida e continuará a receber durante muito tempo.

É verdade, porém, que o próprio Quintana sugere que o poeminho seja uma espécie de cruzamento de poema com passarinho. É o que se pode extrair do penúltimo texto da pequena antologia ao lado (este "penúltimo texto" será publicado na parte 3). Mas o passarinho, que passa voando à toa, só vira poema depois de capturado pelo poeta e engaiolado no papel. Ai, sim, materializa-se o poeminho.

Parte dos textos ao lado vem do "Caderno H", título que tem, por si só, uma longa história. Quintana começou a usá-lo numa seção da Revista de São Pedro, de Porto Alegre, em 1945. O livro Sapato Florido, de 1948, contém material publicado naquela revista. A partir de 1953, o "Caderno H" passa a sair no jornal porto-alegrense Correio do Povo. Vinte anos depois, o poeta lançaria a primeira versão do livro Caderno H, que contém uma vasta coleção de textos, em verso ou em prosa poética, abrangendo os assuntos mais variados.

É indispensável lembrar que esta não é a primeira vez que o autor de Sapato Florido comparece a este boletim. Ele já esteve aqui em 2004, na edição n. 73.

Quintana dispensa comentários. Basta curti-lo, como um bom vinho.

Evoé, Quintana!

Um abraço, e até mais".

Tudo aí, inclusive os quadros de Tarsila do Amaral, vem do sítio Poesia.net , mantido na web por Carlos Machado (a primeira parte foi postada no dia 22/12/2013).

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