terça-feira, 26 de novembro de 2013

ELEIÇÕES EM HONDURAS: "A EMBAIXADA" DIZ QUEM GANHOU

(Ilustração: Portal Vermelho)

Há pelo menos 20% das atas das mesas receptoras de votos em regiões onde o Partido Libre tem grande apoio popular, que foram arbitrariamente auditados e não computados; em comunidades remotas se observou o "voto acorrentado" e a compra de credenciais eleitorais; há milhares de mesas onde os partidos minoritários não receberam nenhum voto, ou seja, que nem os seus candidatos teriam votado por eles mesmos.

Por Atilio A. Boron, no jornal argentino Página/12, edição de hoje, dia 26 - reproduzido do Portal Vermelho

Nas últimas horas de ontem [segunda-feira (25)], o Tribunal Superior Eleitoral de Honduras consagrava como vencedor o candidato do golpe continuísta, Juan Orlando Hernández. Desde o início, o processo eleitoral foi obstaculizado por defeitos irremediáveis que jogaram um cobertor pesado de suspeita sobre seu resultado. 

A intervenção "da embaixada" nos assuntos internos de Honduras deveria ter sido motivo suficiente para suspender as eleições, redesenhar as instituições políticas — entre elas o próprio TSE, controlado por aqueles que aprovaram o golpe em 2009 — e fazer uma nova convocatória eleitoral para quando fossem reunidos os requisitos mínimos para uma eleição, não somente durante a campanha (já por si um problema em Honduras, com seu recorde de jornalistas e militantes da oposição assassinados), mas também durante a contagem final dos votos.

Semanas antes das eleições, representantes do governo declararam que o TSE confrontariam seus dados com os da embaixada dos Estados Unidos antes de apresentar os resultados finais! Em suma, o vencedor seria proclamado por "a embaixada" e o governo do continuísmo golpista de Porfirio Lobo admitiria ter convertido Honduras em um protetorado dos Estados Unidos.

Esta vergonhosa confissão diz muito sobre a história desse sofrido país, ocupado por Washington e convertido na década de 1980 em uma gigantesca retaguarda para servir de apoio logístico às agressões perpetradas contra a revolução sandinista pelos "contras" nicaraguenses.

Xiomara Castro, no dia da votação (Foto: Internet)
Ex-presidente Manuel Zelaya (bigode preto) (Foto: EFE/Página/12)
Juan Orlando Hernández (quarto da esq. para dir.) rezando na noite do domingo (Foto: AFP/Página/12)

O arquiteto do projeto contrarrevolucionário foi John Negroponte, uma das figuras mais sinistras das Américas e designado por Ronald Reagan como embaixador em Honduras, função com a qual contou com a colaboração de outro reconhecido terrorista internacional, Otto Reich. Sob sua gestão, o exército hondurenho foi reorganizado do começo ao fim, fornecendo armamentos sofisticados, equipe e tecnologia militar de última geração, convertendo a base militar de Soto Cano, em Palmerola, em uma das mais estratégicas que os Estados Unidos possuem na América Central e no Caribe.

Quando o presidente Mel Zelaya tentou democratizar o sistema político e concretizou sua entrada na Alba [Alternativa Bolivariana para os Povos de Nossa América], foi violentamente deposto por um "golpe institucional", no qual se converteu em dependente do regime Obama.

Um dos analistas presentes em Honduras, Katu Arkonada confirma a existência de várias "irregularidades", para não dizer fraude à vontade popular. Há pelo menos 20% das atas das mesas receptoras de votos em regiões onde o Partido Libre tem grande apoio popular, que foram arbitrariamente auditados e não computados; em comunidades remotas se observou o "voto acorrentado" e a compra de credenciais eleitorais; há milhares de mesas onde os partidos minoritários não receberam nenhum voto, ou seja, que nem os seus candidatos teriam votado por eles mesmos.

Só resta adivinhar quantos votos de Xiomara Castro foram roubados das urnas. Libre venceu nas ruas, mas não organizou uma rede de fiscais para garantir a pureza da eleição. Confiou em sua grande maioria, certificada por todas as pesquisas, e na inverossímil "imparcialidade" do TSE e do governo diante de uma eleição que o imperialismo e a oligarquia hondurenha não podiam perder, porque Washington jamais aceitaria um resultado contrário aos seus interesses na região.

O primeiro passo da estratégia dos Estados Unidos para evitar um revés político foi a campanha de difamação contra Xiomara e seu partido. Segundo, a organização fraudulenta das eleições e a contagem de votos. Terceiro, se os dois primeiros não frustrassem a vitória do Libre: impugnação do processo eleitoral e manipulação do Congresso para impedir a posse e, caso pudesse fazê-lo, provocar sua destituição "legal", tal como aconteceu com seu marido [Manuel Zelaya em 2009]. Até agora, a direita apelou à fraude, revelando números que não correspondem à realidade e que os meios de comunicação hegemônicos aceitam. Libre terá que recuperar nas ruas o que lhe roubaram nas urnas.

Como você teria reagido à suposta imprensa livre e independente do continente se os vícios, fraudes e crimes perpetrados em Honduras tivessem ocorrido na Bolívia, no Equador ou na Venezuela? Os gritos dos linguarudos do imperialismo e seus aliados teriam sido ensurdecedores.

Em lugar disso, agora nestes meios impera um silêncio cúmplice porque em Honduras vale tudo. Por quê? Porque assim como Israel é a peça chave para garantir o equilíbrio geopolítico no Oriente Médio, Honduras o é para a América Central, por ser este o país onde se concentra a maior parte do poder de fogo estadunidense.

E assim como Washington não ficaria um minuto sequer de braços cruzados diante de um eventual triunfo da esquerda anti-imperialista em Israel, se envolveu descaradamente no processo político interno de Honduras para garantir um resultado de acordo com os seus interesses estratégicos na região. Menos mal que há alguns dias, na OEA, John Kerry deu por superada a Doutrina Monroe!

Atilio Boron é diretor do PLED, Centro Cultural da Cooperação Floreal Gorini.

Tradução: Da Redação do Portal Vermelho - Vanessa Silva.

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