terça-feira, 20 de agosto de 2013

MÉDICOS CUBANOS: EU FUI PACIENTE DO SISTEMA DE SAÚDE PÚBLICA NA VENEZUELA (Parte 2)



Eis aí a "prova do crime": o gesso foi colocado em Caracas e retirado em Salvador (Bahia) (Foto no espelho: Jadson Oliveira)
No Brasil, na primeira clínica de fisioterapia o atendimento pelo SUS estava suspenso. Na segunda, uma moça me disse: “Ah! pelo SUS é lá embaixo, o senhor desce aí...” Lá embaixo, na recepção “dos pobres”, outra moça me avisou que eu teria de voltar pra fazer a marcação no final de agosto. (Estávamos na segunda quinzena de julho).


De Belo Horizonte (MG) – Com o resultado do raio x em mãos cheguei, no final da manhã, ao setor de Traumatologia do  CDI (Centro de Diagnóstico Integral, da “Misión Barrio Adentro” do governo chavista da Venezuela) do bairro (“urbanización”) de Montalbán. O atendimento seria, porém, a partir do início da tarde.


Havia umas 15 pessoas. Vacilei na hora de pegar as senhas – achei o serviço meio desorganizado, os pacientes tinham que ser espertos para serem atendidos com mais rapidez - e terminei sendo um dos últimos. Mas, foi tudo bem, por volta das 3 ou 4 horas da tarde saí de lá com a mão engessada e a recomendação pra voltar um mês depois. O médico da consulta foi o mesmo que botou o gesso.


Aconteceu que durante esse mês eu tive que voltar ao Brasil e na data aprazada para tirar o gesso eu estava em “Salvador de Bahia”, como dizem por lá, puxando o “l” e o “r”. Pensei: vou pelo SUS (Serviço Único de Saúde) e aproveito pra fazer a comparação de como os pobres são atendidos aqui e lá.
Papel do atendimento no serviço de Traumatologia em Montalbán/Caracas (Todas fotos: Jadson Oliveira)
Ordem para fisioterapia em clínica particular em Salvador/Bahia, com "AUTORIZAÇÃO SUS"
Num posto do SUS no bairro de Nazaré (Avenida Joana Angélica), me pediram uma carteira do SUS. Eu não tinha. Pedi então ao rapaz da recepção pra ser atendido assim mesmo, sem a carteirinha do SUS, mostrei a identidade, aquelas choradeiras que a gente faz nessas horas, e ele terminou cedendo.


Um médico me atendeu, comentou que não havia necessidade da mão ter ficado engessada durante 30 dias, mandou retirar o gesso (o serviço foi feito por um auxiliar) e me deu um papel pra fazer a fisioterapia numa clínica no Largo dos Aflitos (relativamente próximo, na região do centro da capital baiana, entre o Campo Grande e o Largo da Piedade). Antes, o papel teve que passar pelo 2º. Centro de Saúde Ramiro de Azevedo (Praça Ruy Barbosa) pra receber um carimbo e uma rubrica: “AUTORIZAÇÃO SUS”.


Até aí tudo bem. Na clínica, chamada Arthros, porém, a face cruel do serviço público de saúde brasileiro começou a aparecer. Pra ficar bem claro: presta serviço público através de convênio, mas é de propriedade privada (o serviço é gratuito para o paciente, mas claro que o SUS paga). Na Arthros, a recepcionista personificou a crueldade: “O atendimento pelo SUS tá suspenso”.
Clínica Arthros, no Largo dos Aflitos, em Salvador: o atendimento pelo SUS estava suspenso
E não quis papo. Insisti, quis saber o porquê, etc, ela só repetia: “Não sei, só sei que tá suspenso”. Uma paciente, sentada na sala de espera, certamente condoída pela minha aflição (na verdade, eu dramatizava um pouco pois não sou tão necessitado, pensava era escrever sobre o assunto), me indicou outra clínica, que também fazia fisioterapia pelo SUS.


Lá fui eu, era perto do Campo Grande, no bairro do Canela. Clifir (Clínica de Reabilitação Física e Mental) é o seu nome, na Rua Marechal Floriano, 19. Na recepção (principal, vamos dizer assim, logo na entrada) uma moça me disse: “Ah! pelo SUS é lá embaixo, o senhor desce aí...” e me indicou com o gesto.


Lá embaixo, na recepção “dos pobres” - eu sempre brandindo o papelzinho com a rubrica e o carimbo “AUTORIZAÇÃO SUS” – outra moça me avisou que eu teria de voltar pra fazer a marcação da fisioterapia no final de agosto. Estávamos então na segunda quinzena de julho (lembrar que o gesso tinha sido colocado em Caracas no dia 19 de junho).


E aí não adianta você querer encompridar o papo. Perguntei: “E com plano de saúde?” Ela me remeteu à recepção anterior, a principal, a “dos menos pobres”, onde enrolei um pouco e me fui. Na verdade, eu só estava querendo saber como funciona realmente o SUS, pois já estava com retorno marcado para Caracas.


No próximo capítulo conto a fisioterapia com os médicos cubanos na Venezuela.

(A parte 1 deste relato foi postada no dia 13/agosto)

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