segunda-feira, 19 de agosto de 2013

CATERVA



Stálin, referido no texto como "o Chefe" ou "Joseph" (Foto: Internet)
Para falar dos oportunistas que se infiltram em todos os cantos, inclusive nas revoluções; para falar, especialmente, dos oportunistas encarregados do trabalho sujo:

“São opacos, tristes, mas o fato de que assumem a repressão os faz invulneráveis por uma razão de Estado que não é nenhuma razão, pelo menos como o apresenta Serge”.

“Espuma malsã da sociedade, aparecem quando o sistema necessita deles e lhes confere uma forma que não estava totalmente na cabeça dos que requereram seus serviços, mas lhes deram os instrumentos necessários para desempenhar seu tenebroso trabalho”.

Por Noé Jitrik, escritor e crítico literário argentino – parte dum texto traduzido do jornal argentino Página/12, edição de 17/01/2013, com o mesmo título acima

Muito se disse sobre os julgamentos de Moscou (a partir de 1936, durante a era Stálin, quando velhos revolucionários bolcheviques foram dizimados com a pecha atroz de traidores) e de tudo mais. Não me sinto em condições de voltar a esse fenômeno com olhos novos e por outro lado não quero repetir dados que já são lugares comuns, um conto de nunca acabar. Me importam mais dois aspectos que se desprendem do relato de Serge e que poderiam transcender ao stalinismo; talvez introduzam uma compreensão de mecanismos políticos variados e repetidos, sempre desconcertantes. Ambos se desprendem dos dois diálogos que Kondratiev mantém com o Chefe.

(Para ajudar a compreensão: Serge é Victor Serge, escritor que atuou na revolução soviética; Kondratiev é personagem de seu romance El Caso Tulaiev - não sei o título duma possível edição em português, é formalmente uma obra de ficção. Tal personagem dialogo com “o Chefe” ou “Joseph”, que não é outro senão Stálin).

O primeiro ponto: quando a revolução logra o poder e se funde com o aparato do Estado, termina por apelar para consolidar recém chegados, sujeitos (agentes, protagonistas) que não faziam parte do elenco inicial; aparecem assim pessoas sem história mas que falam em nome do Partido e do Estado, como se fossem os executores mais fiéis de seu projeto: obviamente o projeto era único desde 1917 a 1926 e bem outro nos anos que se seguiram. Em princípio isso responde a uma necessidade mas logo, quando esse Estado muda de caráter, perde universalidade e suas metas excedem os propósitos iniciais e começa a encontrar, reais ou inventados, múltiplos inimigos, esses recém chegados se ocupam dos aspectos mais terríveis, cumprem ordens de cima com um zelo e uma argumentação que os fundadores não haviam imaginado, mas que não têm força para resistir. Duros, inescrupulosos, são uma caterva feroz que desaparece assim que os inexistentes inimigos foram executados, às vezes publicamente, outras vezes na sombra. Voltam a ser, talvez, bons pais de família, não tiveram nada a ver com nenhuma execução brutal, quem os poderia acusar? Esse elenco ocupa a cena que narra Serge em relação com os expurgos soviéticos: personagens obscuros, quase mudos, que aparecem como a negação mesma do sentido da revolução, mas que possuem armas muito mais eficazes do que a mera argumentação racional. Nenhum deles procede como o fez o mítico Cruz quando enfrentou Fierro: são opacos, tristes, mas o fato de que assumem a repressão os faz invulneráveis por uma razão de Estado que não é nenhuma razão, pelo menos como o apresenta Serge.

Não estranharia que este esquema se aplicasse a diversas situações políticas, revolucionárias ou não no sentido bolchevique. Os nazistas chegaram a controlar toda a sociedade recrutando guardas de assalto no lúmpen (escória da sociedade); a ditadura argentina integrou suas cohortes com delinquentes e assassinos que juntou para formar os tristemente célebres “grupos de tarefas”, apenas agora, quase 40 anos depois de suas proezas, se começa a saber quem são; os “guardas vermelhos” maoístas não foram algo diferente. E assim continua: espuma malsã da sociedade, aparecem quando o sistema necessita deles e lhes confere uma forma que não estava totalmente na cabeça dos que requereram seus serviços, mas lhes deram os instrumentos necessários para desempenhar seu tenebroso trabalho.

O outro tema brota, quase com tristeza, dos lábios do próprio “Joseph” frente a Kondratiev. “O que quer que eu faça com esta responsabilidade que caiu sobre meus ombros?” Kondratiev poderia lhe dizer, “que não são fracos”, mas na realidade pode pensar, porque o estima ainda, que Joseph está preso a uma lógica relacionada com uma instância à qual nem quer nem poderia renunciar: a lógica do poder. Se bem inicialmente esse poder não seja forte, há que se cogitar que Joseph não tem outra alternativa do que consolidá-lo e reforçá-lo, se não o faz pode perdê-lo e se isso ocorre seus inimigos não vacilariam em eliminá-lo, como ele o fez com seus inimigos. Entraria, pensa, em contradição consigo mesmo se não obedecesse a essa lógica acumulativa, mas fazê-lo é cada vez mais custoso e terrível, sacrifica o mais básico, não só elimina a oposição, mas também aqueles de dentro de suas próprias forças que poderiam chegar a ameaçá-lo e, segundo Kondratiev, com certeza a sua própria vida. Joseph inicia assim uma cadeia de ações cada vez mais iníquas, confunde o poder que acumulou com especiosas razões de Estado, finalmente chega à velha fórmula monárquica, “O Estado sou eu”, de modo tal que não lhe custa nada interpretar que discrepâncias, reticências, críticas dirigidas a ele são atentados ao Estado. Nem sequer a fidelidade lhe basta, até os mais fiéis devem ser eliminados porque sua mera individualidade de homens que pensaram e fizeram aquilo que agora ele dirige ameaça a coerência e homogeneidade do poder.

Este texto foi pinçado no meio do artigo mencionado acima. Quem quiser lê-lo na íntegra, em espanhol, deixo o link aqui:

Observação do Evidentemente:

De torturadores e delinquentes

No Brasil, não tivemos (até agora), infelizmente, nenhuma revolução, pelo menos no sentido tratado no texto acima. Todas as mudanças ocorridas no decorrer da história brasileira foram pactuadas entre as chamadas elites, os de cima, de maneira que mudam as coisas sem que mudem de verdade.

De qualquer forma, pelo enfoque principal do texto acima, é impossível não se pensar nos torturadores da última ditadura brasileira (1964-1985), os que já morreram e os que ainda vivem, todos ainda impunes.

No filme de Silvio Tendler, Utopia e Barbárie, que vi recentemente (inclusive postei neste meu blog), ele fala desses delinqüentes que atuaram na repressão e tortura, integrantes da equipe do delegado de tenebrosa memória Sérgio Paranhos Fleury.

Lembra que eles não tinham qualquer formação político-ideológica que embasasse seu “tenebroso trabalho”, vinham dos grupos policiais já calejados, os chamados “de extermínio”, acostumados a torturar e matar os “criminosos comuns”, ou seja, as pessoas pobres (a maioria jovens e negros) envolvidas com delitos (ou supostamente envolvidas).

Prática, aliás, que, no caso desses “criminosos comuns”, continua em vigor desbragadamente (“Onde está Amarildo?” E os milhares de Amarildos? E os assassinados na luta pela terra são “comuns” ou “políticos”?).

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