quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

MARIGHELLA: RESGATE DA MEMÓRIA DE UM MULATO REVOLUCIONÁRIO


A viúva Clara Charf, com emoção: falando do incansável guerreiro do povo
e do "companheiro maravilhoso" (Fotos: Manoel Porto)
De Salvador (Bahia) – Carlos Marighella, lendário dirigente comunista baiano/brasileiro que no final dos anos 1960 foi alçado à condição de inimigo número 1 da ditadura (1964-1985), era um sujeito valente, impetuoso, destemido – “não tive tempo para ter medo”, dito que simboliza seu destemor. Foi assim até o dia 4 de novembro de 1969, quando, aos 58 anos, foi assassinado em São Paulo numa emboscada armada pela equipe do terrível delegado Sérgio Paranhos Fleury, depois de quase 40 anos de militância, a maior parte do tempo na clandestinidade e também em prisões e dois anos como deputado federal, passando por uma bala no peito, torturas e peripécias mil.


Na tarde da última segunda-feira, dia 5, data em que completaria 100 anos de idade, ele foi formalmente anistiado pela Comissão de Anistia do Ministério da Justiça. Ou seja, o Estado brasileiro pediu desculpas aos seus familiares e amigos pelos crimes que cometeu contra o ontem (durante a ditadura de Getúlio de 1930-1945, o período supostamente democrático, especialmente os anos do governo Dutra, e a ditadura militar de 1964-1985) considerado terrorista e hoje reconhecido como herói. A sessão foi realizada em Salvador (Teatro Vila Velha, no Passeio Público, na região central da cidade) com cerca de 500 pessoas – muitos militantes e ex-militantes da esquerda e ex-presos políticos -, incluindo altos representantes governamentais, como o governador Jaques Wagner. O vice-presidente da comissão, Egmar Oliveira, que presidiu a cerimônia, formalizou as desculpas do Estado brasileiro, penitência repetida, em vídeo, pelo ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo.


Auditório e galerias do Teatro Vila Velha lotados; os quatro primeiros
da esq. para dir., na frente: Emiliano José, Carlinhos Marighella, Jaques
Wagner e Clara Charf.
Mesa no início da sessão, presidida por Egmar Oliveira (no centro),
vice-presidente da Comissão de Anistia do Ministério da Justiça
O ato sacramentou uma situação de fato, o reconhecimento do patriota que lutou e tombou pela democracia, pelo socialismo, contra as injustiças sociais, contra as oligarquias neocolonialistas e o império dos Estados Unidos. Teve toda uma vida de perfeito revolucionário (ou quase perfeito, este adjetivo é pesado demais). É o momento, portanto, das merecidas homenagens, a hora de ter seus feitos relembrados:


“Chega de aliança, chegou a hora de ação”


Marighella largou no início dos anos 1930 o ofício de estudante – “brilhante”, conforme atestam – de Engenharia na Bahia e virou militante com dedicação total do Partido Comunista do Brasil, que se tornou Partido Comunista Brasileiro (PCB, chamado Partidão). Foi dos mais importantes dirigentes nacionais do PCB, que era liderado por Luís Carlos Prestes, o mítico Cavaleiro da Esperança. Mas não engoliu a “passividade” do partido diante do golpe militar que derrubou o presidente João Goulart, nem a “linha pacífica” mantida diante da ditadura. Em 1966 partiu para a luta armada: o líder político, agitador comunista, organizador de greves, parlamentar combativo e orador arrebatado virou guerrilheiro.


Criou a Ação Libertadora Nacional (ALN), o mais ativo dos grupos que fizeram a guerrilha urbana. Bateu na mesa e exclamou: “Chega de aliança, chegou a hora de ação”, numa alusão à política de aliança, de frente ampla, praticada quase sempre pelo Partidão (no início da década de 1930 o PCB tinha criado a Aliança Nacional Libertadora (ANL). É desta fase o seu escrito mais conhecido, o Mini-manual do Guerrilheiro Urbano.


Sua impetuosidade e valentia, porém, não encobriam a lucidez: quando do sequestro do embaixador estadunidense Charles Elbrick, em setembro/1969, ação levada a cabo sem seu conhecimento (uma das características da ALN era a atuação descentralizada), ele a apoiou, acrescentando um comentário: “Não vamos aguentar”, ao vislumbrar a tremenda repressão desencadeada pela ditadura.


“Se eu achasse um homem desse eu guardava em casa”


Muito mais da sua trajetória foi recordado por vários dos participantes da cerimônia da Comissão de Anistia, incluindo a relatora do processo na comissão, a antiga militante pela anistia Ana Guedes, e o jornalista Emiliano José (deputado federal pelo PT), autor do livro “Marighella, inimigo número 1 da ditadura”. Muitos fatos foram relatados também nos depoimentos colhidos pelo documentário “Marighella”, feito por sua sobrinha Isa Grispum Ferraz - exibido à noite, no mesmo dia 5, no Cine Glauber Rocha. (Ainda na capital baiana foi lançado também o filme “Carlos Marighella – quem samba fica, quem não samba vai embora”, do cineasta argentino - mora no Brasil – Carlos Pronzato: no dia 5, na Sala de Cinema da Universidade Federal da Bahia, e no dia seguinte, na Câmara Municipal de Salvador).


Advogado Carlos Marighella, o mesmo nome e a mesma cara do pai (filho
de casamento anterior ao com Clara), muito conhecido entre os baianos
como Carlinhos
Mas nem só de atos de bravura viveu Carlos Marighella, muito ao contrário. Nos discursos e depoimentos – em especial da sua viúva Clara Charf, do seu filho Carlinhos Marighella e da própria diretora do filme – sobressaiu-se a cativante figura do mulato baiano, filho de um italiano e uma negra: brincalhão, bem humorado, fazedor de poesia (é famosa uma prova de Física respondida em versos), cheio de invenções, namorador aparentemente de grande sucesso, deixava de lado o militante estudioso e aplicado para se fantasiar de “baiana” em carnavais, compartilhava os trabalhos domésticos com a mulher e, clandestino e procurado pela repressão, ao invés de ser um peso, fazia a alegria dos casais que o acolhiam em casa: além das maçantes tarefas domésticas, ainda cuidava e brincava com as crianças.


Clara contou que um dia ele chegou em casa relatando sorridente: estava diante de uma banca de jornal, onde se via em destaque uma grande foto sua, como procurado que era pela repressão. Uma moça se aproximou, olhou a foto, virou-se para ele e comentou com o próprio: “Se eu achasse um homem desse eu guardava em casa”. E Carlinhos contou que um dia em casa ele estava com um gravador fazendo uma novela (novela de rádio, claro): fazia ele próprio as vozes dos personagens, inclusive as femininas.


Assim viveu e morreu um mulato revolucionário do Brasil. Viva Marighella!

2 comentários:

Jadson disse...

Todo mundo já fez um bocado de besteira na vida, especialmente quando se é jovem. Ainda bem!

Quando Marighella foi morto, em 4 de novembro de 1969, eu estava em Xique-Xique trabalhando no antigo Baneb (Banco do Estado que foi "doado" pela turma do ACM ao Bradesco, na triste fase do vendaval neoliberal que varreu nosso mundo).

Eu morava numa "república" com uns colegas. Cheguei à noite desconsolado e escrevi na parede do meu quarto: "Viva Marighella! Viva Marighella! Viva Marighella!"

Santa porra-louquice!!!!

Jadson disse...

Para os não baianos, Xique-Xique é uma cidade do interior da Bahia, à beira do Rio São Francisco.