sábado, 8 de agosto de 2009

Lembrança do destemido dom Timóteo

De Curitiba(PR) - Pelo menos dois episódios marcaram a passagem do monge Timóteo Amoroso Anastácio, conhecido como dom Timóteo, como abade do Mosteiro de São Bento, em Salvador-Bahia: a destemida resistência à invasão policial do mosteiro durante perseguição a estudantes, no tumultuado ano de 1968, culminado em 13 de dezembro com a edição do famigerado AI-5 (para os mais jovens, o Ato Institucional n. 5, que radicalizou a ditadura e matou o renascente movimento de massas contra o regime militar); e o famoso diálogo que o beneditino promoveu entre os católicos e o candomblé, iniciativa que resultou na memorável Missa do Morro, um escândalo para os conservadores.

Mas quero dar meu testemunho sobre fatos mais corriqueiros, aparentemente menos heróicos, reflexo do dia-a-dia da ação do nosso monge no apoio aos movimentos sociais em luta contra os aproveitadores da ditadura militar.

Refiro-me particularmente à atuação dos bancários baianos na década de 70, na peleja para expulsar os pelegos do sindicato। Que relação pode ter isso com dom Timóteo? Aí é que está, tem relação sim. Como ocorreu com vários outros segmentos populares, pois ele estava sempre ao lado dos mais pobres, dos injustiçados, dos olvidados.

Eu trabalhava no antigo Baneb, o Banco do Estado da Bahia, que, depois, na era do entreguismo de FHC, foi “doado” ao Bradesco (mandava na Bahia o então cacique Antonio Carlos Magalhães, o ACM). Em 1975, organizamos uma chapa para concorrer às eleições do sindicato. Era a Oposição de Verdade, a Chapa Verde (havia essa coisa de uma cor para cada chapa, claro que ninguém escolhia o vermelho, era uma cor banida).

Nossa chapa era encabeçada por Corinto Soares Joazeiro (do antigo Banco Econômico), remanescente da oposição bancária desarticulada na época do AI-5. E tinha entre os membros mais destacados Vivaldo Ornellas, do Banco do Brasil (atuava no MDB, depois PMDB, vinha de uma campanha para suplente de senador); e o hoje blogueiro (dando ares de memorialista) que vos fala, que então militava clandestinamente no PC do B.

No fervor da campanha, a Delegacia Regional do Trabalho (DRT, órgão do Ministério do Trabalho) comunicou que alguns nomes da oposição tinham sido vetados pelos “órgãos de segurança”. Depois acrescentaram outros vetos e a chapa perdeu a condição “legal” de disputar. Hoje, para quem é jovem e não estudou nossa história contemporânea, pode parecer absurdo, mas se tratava de um fato normal para a época. (Os bancários baianos só conseguiram derrubar os pelegos, os aproveitadores da ditadura, em 1981, com a segunda chapa que concorreu após a tentativa da Chapa Verde).

Naquele clima de medo (voltamos a 1975), com o comunicado dos vetos através da DRT, onde nos reuníamos na maioria das vezes? Acertou! No Mosteiro de São Bento, sob a proteção de dom Timóteo, graças à ajuda do advogado Adelmo Oliveira, pessoa próxima ao monge, que se empenhou na defesa da chapa. Mas, os tais “órgãos de segurança” nem se deram o trabalho de dizer o porquê dos vetos. Adelmo, aliás, mereceria um texto à parte. Poeta, desprendido, solidário à causa dos oprimidos, foi também deputado estadual pela oposição. Não me esqueço. Quando lhe agradecemos, ele respondeu: “Não precisa agradecer. São deveres da cidadania”.

Voltando a dom Timóteo, que morreu em 1994, aos 84 anos. Era uma figura admirável, com um jeito tranquilo e sábio. Em resumo, um humanista. Me lembro ele dizendo numa entrevista: “Ninguém é herói para seu mordomo”. Espero que Fabiano o tenha retratado bem.

(Este texto, originalmente bem mais resumido, foi escrito há uns três meses, a pedido do meu filho, professor Fabiano Viana Oliveira, para publicação junto à biografia que escreveu sobre o religioso, a ser incluída em coleção patrocinada pela Assembleia Legislativa da Bahia. A previsão inicial é que o livro seria publicado neste mês de agosto, com o título A força de um abade amoroso).

2 comentários:

Ciência e Literatura de outro mundo disse...

Beleza de texto. Espero que o livro saia realmente neste mês.

Parabéns,

Fabiano

Anônimo disse...

AGUARDO O LIVRO. ESPERO QUE SEJA NOTICIADO PELA IMPRENSA.
"DOM" MERECE QUE A SUA VIDA SEJA ESCRITA EM TINTA E PAPEL PARA FICAR REGISTRADO O QUE JÁ ESTÁ GRAVADO NO CORAÇÃO DE DEUS
GOSTEI DO SEU ESCRITO SOBRE O DOM
marina trndade
SALVADOR-BAHIA